segunda-feira, 9 de março de 2026

Uma pessoa e o mar

la mer et moi



    O mar é bonito de se olhar
    Admirando-o
percebo
o mais belo não é quando ele está cristalino e calmo
lâmina vítrea infinita
    O mar me parece mais belo quando 
misturando um azul acinzentado com o branco da espuma
há uma textura quase sólida
o mar converte-se em rocha áspera
ao mesmo tempo
móvel, instável, fluída e fria
    Rocha impenetrável ao olhar
o mar segue misterioso 
mas não estático
quase como se pudéssemos viver o tempo da Terra
como se nos presenteasse, então, com a experiência
de um tempo geológico em que as rochas se movem
em que montanhas se formam
e relevos se transformam
uma dádiva que me põe
                        catártico
                        maravilhado
                        contemplativo em uma experiência quase inefável

domingo, 8 de março de 2026

Ver sem a cor

Olhos daltônicos


Das cores que nunca vi
sinto ou não falta?
As cores que perdi...
O que li 
tem mais formas
e menos cores
mais dores
enxergar mais do que flores
há lírios e rosas e antúrios e ipês e  flores-de-maio e brincos-de-princesa e...
Mas essas flores não têm tanto tons quanto têm nomes
perfumes
texturas
são cinzas 
sem matiz
sombras
quimeras
pó do ser
ser além das cores que não se vê

sexta-feira, 6 de março de 2026

(sobre ti)

O último poema


Adeus
a ti e teus dilemas
vemo-nos
caso for
fora dos poemas

Acordei

Triste


Acordei triste
coração atento, mas 
cansado

Acordei triste
coração apressado e
cansado

Acordei triste
coração cansado e
farto
de entregar sem receber mais que migalhas

Acordei triste
não porque o coração vazio
não volta a se encher, mas
porque é difícil ter esperança para amar
 

Em poucas palavras

Haicry


o nós não é
mera soma
de dois eus

Tanto II

tanta coisa e tão pouca palavra

Tanta coisa para te dizer
Tanta angústia, tanta dor
Tanto passado presente
Tanta tristeza, tanta alegria
Tanta mistura
Tanto amor, tanto medo
Tanto tanto...
    e não me sai palavra que baste,
        que diga,
                que me arraste
                    que me segure
que dure
        que...

Tanto I

tanto e tão pouco

Tanto não
para tão pouco sim
Tanto descompasso
para tão pouco passo
Tanto olhar frio
para tão pouco abraço quente
Tanta palavra dura
para tão pouco riso frouxo
Tanta agrura no desejo
para tão pouca doçura no beijo
Desejo, se desejo há

Outra vez

Encore


Toi, je t'aime
La vie, je l'aime
Moi, c'est ça — je ne le sais pas

Eis aí...

pas assez


Voilà !
C'est ça :
aimer, c'est pas
suffisant pour moi

Quente

 Curiosidade


A curiosa paz
de um ouvido amigo

domingo, 1 de março de 2026

Espera

paz e esperança


a minha paz é minha
é meu tesouro
a minha paz não vale a fantasia do que não é
na esperança de que venha a ser

Basta

                

Já me basta o peso da vida proletária
Não preciso que outro como eu me faça
feito faca
sangrar a existência diária

Já me basta o pecado do capital
Não preciso mais uma relação que me faça 
feito cuspe na cara
sentir culpa visceral

Já me basta a desgraça da precariedade
Não preciso de ninguém que me faça
de graça
duvidar da graça de amar de verdade

Já me basta o etos antiético neoliberal
Não preciso de outrem que me faça
por temor
desacreditar no valor real
da boa companhia
da vida coletiva
da cooperação

Nem todo haicai é sobre uma bela paisagem

IX

Teu individualismo, medo e frieza,
travestidos de maturidade e autonomia,
empobrecem tua vida dia após dia
 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

com pulsão

grafomania

escrevo
escrevo
apago
reescrevo
escrevo mais
escrevo mais forte
escrevo redundantemente
escrevo porque preciso
escrevo porque desejo
e desejo não mais desejar
escrevo porque queria descolar-te de meu desejo
escrevo porque queria descolar-te de minhas palavras
escrevo porque queria desejar diferentemente
escrevo longas linhas
escrevo garatujas de dor
escrevo compulsivamente
escrevo à exaustão
escrevo até calejar a mão
apago e reescrevo como expiação
escrevo e reescrevo com paixão
escrevo sem pensar
escrevo como reflexo
escrevo como amplexo morno
escrevo como cuspe
escrevo para não sufocar
                        [suspiro]

Mas e esse ano?

Versos ínfimos

não te queria escrever mais verso algum:
um triste sintoma de um amor moribundo.
ainda assim, rabisco esses versos ínfimos
sobre a lama, o escarro, a pedra e a chaga
a que me acostumei a chamar de amor.

Épocas nada longíquas

            #39

Escrevo versos,
esses versos pálidos,
        secos
        e triste,
mais uma vez,
a fim de que atraque,
    a esperança,
        em algum porto seguro
ou,
            de vez,
afunde dentro de um navio, 
        junto com meus sonhos

Um dia tatuei,
            eu sei,
na pele da vida que navegar era mais necessário do que era preciso viver

Um dia escrevi longos versos para alguém com quem,
    supus,
poderíamos costurar uma rede,
                    um lar,
                    um nós
enquanto navegávamos o mar,
enquanto apreciávamos a viagem

Errei

Recorrentemente,
me peguei remendando a rede de nós,
                                    a vela do barco,
                                    o laço do afeto
e demorei a entender
                – ainda que não consiga realizar em ato –
que de tanto tentar navegar um sonho só meu,
essa paixão se eco,
sobreviver tornou-se mais imperioso:
                                                            atracar ou naufragar

Escrevo esses versos a fim de que seus ecos levem junto a dor e a urgência de viver isso,
abrindo caminho para outros sonhos ou mar...

Caminhante

Ir sem chegar

Fui o mais longe que podia
Fui mais longe do que deveria
Fui para longe de mim
Fui atrás de ti
        [atrás e longe, fui]
Fui e nunca cheguei 
Fui e me perdi
Fui e me machuquei
Fui e repeti
Fui para longe do que sou
Fui, repetindo
Fui, vou
        e sigo indo

Notas daltônicas

Cinza

O gris do cabelo
A cinza já fria
Os olhos descoloridos
O mar cedo pela manhã 
A prole
A pele pálida
A tempestade que vem
O peso
O prédio
A nuvem
A rocha
A pena
O cinza brilhante do metal
O quase branco, o quase negro
A história 
A guerra
O moribundo
E, às vezes, a vida