terça-feira, 18 de agosto de 2026

Poesia marinha (1)

Cœur franc


Mulher,
        me ensinaste,
o mar não é teu espelho,
mas, sim, as baleias, 
que nele imergem especulares
– imagem espetacular de tua alma.

Mulher,
o mar não guar teus segredos, 
mas, sim, o franco coração 
de uma baleia.

A viagem,
o retiro,
as mornas águas litorâneas,
as frias águas oceânicas
não são senão 
o leito,
no qual te deitas,
o manto, 
com o qual te cobres
o véu, 
com o qual recobres
tua beleza existencial.

Teus giros:
tua graça em uma existência densa.
Teu canto:
um pranto poético,
que não apaga a dor
    da sina,
    do peso,
    da caça,
    do ódio.

O mar e tu –
um amor inegável,
inegociável,
que só ouso admirar
de meu profundo abismo.

Às baleias não amas
– as és.
As olhas
refletida
em suas dobras, 
suas curvas
suas ondas.
Convertes-te
sem tas tornares,
devéns
sem as seres,
afetates
sem te desfazeres,
sem te perderes 
por completo
no movimento inominável
entre as carnificinas e a morte.

Elas, tu – vida nua

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