terça-feira, 13 de outubro de 2026

Poesia marinha (3)

Penumbra / sem imagem


Lembrei
– a imagem feito um flash:
são sempre
    assim
        fugidias
            efêmeras
        fugazes
    evasivas

Cegou-me
    não os olhos
mas a alma
    não a luz que revela
mas sombra que envolve 

Teu corpo
a sensação em mim
        memória

Teu corpo
o céu da penumbra
        pintura

Teu corpo
a escuridão e a janela
        tinta

Teu corpo
o encontro dos olhares
        tela

Ondas que te recobrem
    redesenham
            tua beleza
marcam
    teus contornos
contornam
    meu corpo
compõem
    algo novo que
    estava ali
e que já não 
        te abandona
quando te olho
quando me lembro

Contre-plongée
    mergulho
nessa visão
    que me inunda
sem que eu possa contê-la
— mergulha
    ou te afogo
me murmulhas

ruminar

rumo


uma rua
uma escada
um elevador
uma sala de espera
outra escada 
outra rua
um choro no bar

depois de muita lágrima aguar o corpo
sento à mesa
nem bebo
nem fumo
o rumo de meu pensamento
é o balançar dos pés
no ritmo de teu olhar
na melodia de teu sorriso
na cadência de teu silêncio

essayer

la mort et la vie d'une petite personne dans un sens moral, intelectuel et économique


Le petit fait
le grand

Les petit dérange
le grande

L'un ronge
les uns

Le nous mange
l'un

Poesia marinha (2)

versos repentinos/repetidos


os versos
esses que te dou
são mar
que espelha
o inferno povoado de lágrimas
em que nado 
– narciso? –
para não me afogar
no sonho e no tédio

Variações de um mesmo roubo

Eu te dou esses versos


    I
o mar
espelho do tempo
devora esses versos

    II
o tempo
inferno povoado de amigos

    III
o mar devora a vida
e no tempo
– teu espelho –
contemplas tua dor

    IV
oh dor
oh dor
o tempo devora o amor
esse inimigo que se alimenta do sangue
e do ardor 
que aquece o coração

    V
oh dor
oh dor
o tempo devora o amor
e esse torpor
que aumenta
tanto mais de minha alma se alimenta




Nós

às vezes e algum dia


Às vezes só queria poder te dizer
às vezes só queria poder sentir
às vezes só queria poder
sem temer que ultrapasso uma linha
mas tudo isso
eu sei
é um desejo infantil

Na vida adulta
poder
e querer não costumam andar de mãos dados

Quem sabe
algum dia
uma hora dessas
te digo o que sinto
me dizes o que sentes
e seguimos como pudermos