silêncio e presença
a meu avô, João
Não lembro de nenhuma grande conversa entre nós
de uma frase de sabedoria profunda tua
mas jamais me esquecerei de caminhar contigo
aos 5 ou 6 anos
(e aos 10 ou 12)
sobre as pedras
à beira mar
sob céu azul ou noite estrelada
ouvindo o marulho
sentindo as gotículas voam das ondas da rebentação
enquanto catávamos búzios e mariscos incrustrados e escondidos
enquanto pescávamos peixes bailarinos e siris assustados
e voltávamos para casa na pria
(eu com um baldinho amarelo de alça azul)
tudo isso quase sem nenhuma palavra trocada
(falavas apenas o indispensável trivial)
Contigo
me dizem essas memórias que guardo com carinho
contigo aprendi a contemplar a beleza do silêncio
a eloquência do gesto
a incomensurabilidade do tempo
e a preciosidade da boa companhia