sábado, 21 de março de 2026

E agora, João?

                silêncio e presença

                                                    a meu avô, João

Não lembro de nenhuma grande conversa entre nós
de uma frase de sabedoria profunda tua
mas jamais me esquecerei de caminhar contigo
aos 5 ou 6 anos
(e aos 10 ou 12)
sobre as pedras
à beira mar
sob céu azul ou noite estrelada
ouvindo o marulho
sentindo as gotículas voam das ondas da rebentação
enquanto catávamos búzios e mariscos incrustrados e escondidos
enquanto pescávamos peixes bailarinos e siris assustados
e voltávamos para casa na pria
(eu com um baldinho amarelo de alça azul)
tudo isso quase sem nenhuma palavra trocada 
(falavas apenas o indispensável trivial)

Contigo
me dizem essas memórias que guardo com carinho
contigo aprendi a contemplar a beleza do silêncio
a eloquência do gesto
a incomensurabilidade do tempo
e a preciosidade da boa companhia

segunda-feira, 9 de março de 2026

Uma pessoa e o mar

la mer et moi



    O mar é bonito de se olhar
    Admirando-o
percebo
o mais belo não é quando ele está cristalino e calmo
lâmina vítrea infinita
    O mar me parece mais belo quando 
misturando um azul acinzentado com o branco da espuma
há uma textura quase sólida
o mar converte-se em rocha áspera
ao mesmo tempo
móvel, instável, fluída e fria
    Rocha impenetrável ao olhar
o mar segue misterioso 
mas não estático
quase como se pudéssemos viver o tempo da Terra
como se nos presenteasse, então, com a experiência
de um tempo geológico em que as rochas se movem
em que montanhas se formam
e relevos se transformam
uma dádiva que me põe
                        catártico
                        maravilhado
                        contemplativo em uma experiência quase inefável

domingo, 8 de março de 2026

Ver sem a cor

Olhos daltônicos


Das cores que nunca vi
sinto ou não falta?
As cores que perdi...
O que li 
tem mais formas
e menos cores
mais dores
enxergar mais do que flores
há lírios e rosas e antúrios e ipês e  flores-de-maio e brincos-de-princesa e...
Mas essas flores não têm tanto tons quanto têm nomes
perfumes
texturas
são cinzas 
sem matiz
sombras
quimeras
pó do ser
ser além das cores que não se vê

sexta-feira, 6 de março de 2026

(sobre ti)

O último poema


Adeus
a ti e teus dilemas
vemo-nos
caso for
fora dos poemas

Acordei

Triste


Acordei triste
coração atento, mas 
cansado

Acordei triste
coração apressado e
cansado

Acordei triste
coração cansado e
farto
de entregar sem receber mais que migalhas

Acordei triste
não porque o coração vazio
não volta a se encher, mas
porque é difícil ter esperança para amar
 

Em poucas palavras

Haicry


o nós não é
mera soma
de dois eus

Tanto II

tanta coisa e tão pouca palavra

Tanta coisa para te dizer
Tanta angústia, tanta dor
Tanto passado presente
Tanta tristeza, tanta alegria
Tanta mistura
Tanto amor, tanto medo
Tanto tanto...
    e não me sai palavra que baste,
        que diga,
                que me arraste
                    que me segure
que dure
        que...

Tanto I

tanto e tão pouco

Tanto não
para tão pouco sim
Tanto descompasso
para tão pouco passo
Tanto olhar frio
para tão pouco abraço quente
Tanta palavra dura
para tão pouco riso frouxo
Tanta agrura no desejo
para tão pouca doçura no beijo
Desejo, se desejo há

Outra vez

Encore


Toi, je t'aime
La vie, je l'aime
Moi, c'est ça — je ne le sais pas

Eis aí...

pas assez


Voilà !
C'est ça :
aimer, c'est pas
suffisant pour moi

Quente

 Curiosidade


A curiosa paz
de um ouvido amigo

domingo, 1 de março de 2026

Espera

paz e esperança


a minha paz é minha
é meu tesouro
a minha paz não vale a fantasia do que não é
na esperança de que venha a ser

Basta

                

Já me basta o peso da vida proletária
Não preciso que outro como eu me faça
feito faca
sangrar a existência diária

Já me basta o pecado do capital
Não preciso mais uma relação que me faça 
feito cuspe na cara
sentir culpa visceral

Já me basta a desgraça da precariedade
Não preciso de ninguém que me faça
de graça
duvidar da graça de amar de verdade

Já me basta o etos antiético neoliberal
Não preciso de outrem que me faça
por temor
desacreditar no valor real
da boa companhia
da vida coletiva
da cooperação

Nem todo haicai é sobre uma bela paisagem

IX

Teu individualismo, medo e frieza,
travestidos de maturidade e autonomia,
empobrecem tua vida dia após dia