sábado, 21 de março de 2026

E agora, João?

                silêncio e presença

                                                    a meu avô, João

Não lembro de nenhuma grande conversa entre nós
ou de uma frase de sabedoria profunda herdada
mas jamais me esquecerei de caminhar contigo
aos 5 ou 6 anos
(e aos 10 ou 12)
sobre as pedras
à beira mar
sob céu azul ou noite estrelada
ouvindo o marulho
sentindo as gotículas que voavam das ondas da rebentação
enquanto catávamos conchas 
incrustradas e escondidas
e voltávamos para casa na praia
(eu com um baldinho amarelo de alça azul balançando na mão)
tudo isso sem quase nenhuma palavra trocada 
(falavas apenas o trivial indispensável)

Contigo
me dizem essas memórias que guardo com carinho
contigo aprendi a contemplar a beleza do silêncio
a eloquência do gesto
a incomensurabilidade do tempo
e a preciosidade da boa companhia

Nenhum comentário: