segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Épocas nada longíquas

            #39

Escrevo versos,
esses versos pálidos,
        secos
        e triste,
mais uma vez,
a fim de que atraque,
    a esperança,
        em algum porto seguro
ou,
            de vez,
afunde dentro de um navio, 
        junto com meus sonhos

Um dia tatuei,
            eu sei,
na pele da vida que navegar era mais necessário do que era preciso viver

Um dia escrevi longos versos para alguém com quem,
    supus,
poderíamos costurar uma rede,
                    um lar,
                    um nós
enquanto navegávamos o mar,
enquanto apreciávamos a viagem

Errei

Recorrentemente,
me peguei remendando a rede de nós,
                                    a vela do barco,
                                    o laço do afeto
e demorei a entender
                – ainda que não consiga realizar em ato –
que de tanto tentar navegar um sonho só meu,
essa paixão se eco,
sobreviver tornou-se mais imperioso:
                                                            atracar ou naufragar

Escrevo esses versos a fim de que seus ecos levem junto a dor e a urgência de viver isso,
abrindo caminho para outros sonhos ou mar...

Caminhante

Ir sem chegar

Fui o mais longe que podia
Fui mais longe do que deveria
Fui para longe de mim
Fui atrás de ti
        [atrás e longe, fui]
Fui e nunca cheguei 
Fui e me perdi
Fui e me machuquei
Fui e repeti
Fui para longe do que sou
Fui, repetindo
Fui, vou
        e sigo indo

Notas daltônicas

Cinza

O gris do cabelo
A cinza já fria
Os olhos descoloridos
O mar cedo pela manhã 
A prole
A pele pálida
A tempestade que vem
O peso
O prédio
A nuvem
A rocha
A pena
O cinza brilhante do metal
O quase branco, o quase negro
A história 
A guerra
O moribundo
E, às vezes, a vida